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4 de set. de 2013

Espaços






A partir de algumas viagens de lazer de carro pelo Uruguai e Argentina, há alguns anos me intriga diferenças nos espaços urbanos de habitação entre aqueles vizinhos e o Brasil: porque sendo tão vasto o nosso país suas terras e terrenos são tão 'apertados' ?

A quantidade de classificações de 'posse' e o número de Escrituras definitivas restrito apenas aos empreendimentos das últimas décadas me parece revelar alguma doença 'patrimonialistica' do Brasil, talvez mesmo herdada de Portugal (sabe-se que a Espanha dava instruções aos administradores de suas colônias de como as cidades deviam ser feitas, ao contrário de Portugal, que 'deixava solto').

Porque mesmo no diminuto Uruguai as casas se centram nos terrenos com amplas áreas livres à volta, enquanto nós vivemos apertados em espaços de terrenos pequenos ? Tempos atrás um primo de Porto Alegre mostrou-me sua casa em construção num condomínio de classe 'A'. Pois o recuo nas habitações não devia passar de qualquer metro e meio !

O visual caótico e estúpido agrava-se com outro enigma - porque nos nossos vizinhos se nota claramente o hábito de utilizarem projetos arquitetônicos no que constroem para viver, enquanto no Brasil não existe o hábito, os donos "projetam" eles mesmos as construções horríveis para viver com os seus ?

Assim, achei interessante o artigo reproduzido abaixo em 03.09.2013 no Jornal do Brasil - o autor, com sua vivência de Defensor Público, conta-nos de outras consequências importantes, decorrentes do atraso habitacional no nosso país:



Os puxadinhos na Lei Maria da Penha

Carlos Eduardo Rios do Amaral*

Muita gente imagina que as maiores causas disparadas da violência doméstica e familiar sejam a questão das drogas e do álcool, considerando distantes todos os outros possíveis fatores deflagradores dessa modalidade específica de violência. A grande verdade é que a questão dos puxadinhos, aqueles aglomerados de residências de uma mesma família, que vão se formando num mesmo lote, a partir da antiga casa do ancestral da família, toma conta de boa parte dos processos dos juizados de violência doméstica no país.

A própria Lei Maria da Penha, de alguma forma, faz referência a essa situação possessória: “Artigo 5º (...) I - No âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas”. E a animosidade em muitos desses sítios familiares é recorrente. Não é difícil verificar o uso de foices, enxadas e facões nessas discussões familiares. Claro, cada um tomando parte de seu parente mais próximo em detrimento do outro, mas às vezes existe certa confusão na hora de tomar partido da briga ou discussão.

Claro que esse não é um problema pelo menos inicialmente jurídico mas, sim, social. Está intimamente entrelaçado à questão da habitação no Brasil, à dificuldade da aquisição da casa própria. Tanto na zona urbana como na zona rural. É fenômeno que atinge diretamente as classes mais pobres do país. Cada ser tem a sua subjetividade. Um gosta de café com açúcar, o outro sem açúcar; um gosta de ouvir louvores religiosos, o outro gosta de montar uma verdadeira roda de pagode na sua sala; um é flamenguista apaixonado, com direitos a fogos e tudo mais, o outro detesta futebol; um adora animais e cria meia dúzia deles, o outro prefere viver longe de bichos; e por aí vai. É claro que em menos de seis meses esse local se transformará, naturalmente, em uma Faixa de Gaza. É uma bomba relógio prestes a explodir.

Não se trata de relacionar essas pessoas à bandidagem ou à criminalidade. Pelo contrário, a sua maioria esmagadora é formada de gente honesta e trabalhadora, pessoas queridas e conhecidas na comunidade. Mas, mesmo assim, o dia a dia ao lado de dezenas de convidados, agregados, parentes e familiares, misturando-se à individualidade de cada um, tem o poder de transformar qualquer local em lugar insuportável, recheado de intolerâncias e episódios de contendas familiares.

Muitos desses casos acabam indo parar no Juizado de Violência Doméstica, camuflados de violência de gênero. Quando se sabe que o pano de fundo da discussão é a insuportabilidade da vida em comum entre esses posseiros consanguíneos e afins, moradores do mesmo terreno. Do vaso de planta quebrado, passando pelo barulho do portão, até o padrão de água e energia elétrica, tudo deságua no Juizado de Violência Doméstica.

De algum modo, os juizados de violência doméstica acabam debelando a ocorrência de homicídios e outros tipos de violência nesses ambientes familiares, salvando pessoas. Tornando a Justiça presente e sentida pelos envolvidos nesses complexos imbróglios familiares. Mas a própria aplicabilidade das medidas protetivas de urgência se faz difícil nesses locais. Não ter contato, não se aproximar ou deixar de frequentar os mesmos lugares nessa situação de enlace habitacional é coisa muitas vezes problemática. O afastamento do lar fica juridicamente impraticável porque cada um considera seu cômodo ou espaço isoladamente como lar – o que de fato é.

Os casos de reincidência nesses puxadinhos são frequentes. Praticamente, muitas dessas famílias passam décadas ou mesmo o resto da vida em delegacias e fóruns. Quase todos possuem processos criminais uns contra os outros. Se um descobrir que o outro registrou nova queixa, seu adversário corre também para a delegacia vizinha, Defensoria Pública ou Ministério Público, para fazer a sua reclamação contra o parente.

O que se observa nitidamente é que o poder público não pode ficar inerte ou indiferente à questão desses puxadinhos inflamados pela violência, doméstica ou não. Deve-se conceber que o problema da habitação no Brasil e as dificuldades na aquisição da casa própria também são fatores de fomento da violência. E, assim, devem ser criadas políticas públicas para assegurar que cada família brasileira tenha um padrão social aceitável de moradia.

Carrear sempre para o Poder Judiciário a contenção dos episódios de violência nesses puxadinhos é apenas um paliativo para o problema, sempre acompanhado da eternização dessas contendas familiares. É o Poder Executivo, principalmente a nível municipal, que possui o dever de promover essas transformações sociais locais, inclusive começando pela educação de crianças e jovens nas escolas, discutindo a respeito desse aflitivo problema social, ligado ao planejamento familiar.

* Carlos Eduardo Rios do Amaral é defensor público no estado do Espírito Santo.

18 de ago. de 2010

Grandes crimes da história tucana

No lançamento do plano Real eu era caixa numa agência bancária em numa cidade do interior.
Tinha muito contato com pessoas 'da roça', o que me dava especial prazer - alguém de cidade grande usufruindo das sabedorias, simpatias e dignidades daquela gente humilde do interiorzão do município.
Aí o sociólogo lesa-pátria lançou o plano econômico do Itamar e uma coisa me deixou assombrado: as novas moedas de um, cinco, dez, cinquenta centavos e a de um Real tinham o MESMO anverso (ou 'coroa') !
Foi triste, a partir daquele momento e por alguns anos, assistir o sofrimento daqueles idosos tentando contar-separar seus poucos dinheiros, com aquelas moedas iguais (as de cinco e dez centavos tinham quase o mesmo diâmetro, e naquele tempo elas tinham valor, o Salário Mínimo era de R$ 64,79).
Será que na história moderna da economia algum país já tinha cometido semelhante estupidez/morbidez ?
Quantos haverá na hierarquia que aprova e autoriza tal "obra" num país como o nosso ? Qual será a soma dos salários deles todos juntos, pra realizarem tal estupidez (ou sadismo) ?

12 de nov. de 2009

Governabilidade é o Cacete !

Isto é que é não ter rabo preso, uma rara comentarista puramente honesta, no Nassif :

Elaine disse: 12/11/2009 às 10:11

"Eu acho que a Itália já deu pitacos demais em meu país. Eu acho que o STF do Gilmar Dantas já foi longe demais. Eu acho que a imprensa deste país está por fora de tudo. Eu acho que os jornalistas globais deste país passaram da hora de ser enquadrados pelo governo federal, assim como fez Obama com a Fox. Eu acho que tá faltando a este governo pulso firme para lidar com golpistas. Eu acho que este governo tá pecando em deixarmos nós blogueiros aqui defendendo ele, quando a imprensa e seus jornalistas o atacam de forma estarrecedora, criminosa, através de concessão pública. Eu já até começo a lavar as mãos para tudo, pela falta de energia deste governo em combater com coragem tanto golpistas como a imprensa, golpistas como Gilmar Dantas, golpistas como jornalistas globais.
Que no ano que vem tome posse o Presidente eleito José Serra, com a ajuda de todos os golpistas que este governo covardemente insiste em não enfrentar. Dá nos nervos, cansa ficar assistindo a falta de pulso firme deste governo, todo mundo manda neles, o Gilmar Dantas chama o Lula às falas e Lula não faz nada, Protógenes – homem honesto e digno - foi afastado da PF junto com o Dr. Paulo Lacerda. Já o Daniel Dantas tá soltinho, junto com os criminosos da Daslu e demais criminosos de colarinho branco.
Chega, cansei de ser massacrada todos os dias, de ser oprimida por estes jornalistas pela forma que estes trogloditas colocam a informação, partidários, ignorando nossas experiências, ignorando tudo. Ou o governo federal toma uma postura de gente, do jeito que está tá difícil, já vimos que outros Presidentes de outros países já tomaram posturas mais firmes com os golpistas: Cristina (da Argentina), Hugo Chaves (Venezuela), Obama (EUA).
O que este governo tem de rabo preso com a rede globo? Encheu o saco, meu – os caras tomam porradas todos os dias, nós aqui indiretamente somos humilhados todos os dias, e o governo não reage, tá morto.
Nassif, desculpa o desabafo, mas tá difícil para ficar com o estomago doendo todos os dias com a imprensa deste país, que usa de uma concessão pública, para aplicar golpe contra o povo brasileiro, e quando vejo o governo federal morto nisso tudo, nem sinto mais vontade nenhuma de defendê-lo.
Então vai ficar assim : Enem, CPI (um monte foi instalada no governo federal), enquanto em SP nunca se conseguiu instalar uma, umazinha sequer, cadê o direito da minoria? A oposição utilizou deste recurso para abrir tantas CPIs contra o governo federal, e em SP, silencio, Zé Serra caga na boca de todo mundo, o tal do Apagão, que pra mim isso tem dedo de PSDB e DEM, e mesmo se não tiver, cadê o Lula e a Dilma para vir a público, mostrar os investimentos, mostrar ao povo brasileiro as manipulações que são feitas na imprensa.
Pelo silencio do governo federal, que venha José Serra.
Quem não faz – toma !"

14 de abr. de 2008

brasil para principiantes


Então vou vender aquelas merdas de ações de dois telefones que me custaram R$ 1.217,00 cada em 1996. Valem um terço a partir de uma canetada de ministro corrupto (redundância) depois das privatizações.
Até aqui é putaria, agora a coisa se acresce de surrealismo:
No banco Real a moça me exige 'atestado de residência' autenticado. Insisto em por os olhos nas intruções dela e vejo que extrato bancário serve, então mostro o logotipo do banco Real no papel que dei a ela, com o endereço que quer e sem precisar autenticação. Ah, do próprio banco não serve.
Mas o artigo 225 do Código Civil não 'garante' a presunção de inocência (no brazyl uma lei tem que dizer, não basta o que a Constituição diz). Ao me exigir autenticação o banco está me presumindo culpado de trazer uma comprovação de residência falsa. Ok, o tal código diz que o documento apresentado pode ser impugnado - estão o banco que o impugne como suspeito, por escrito, please. Aí vou lá e autentico.
Como estava mais me divertindo ao questionar os atentados ao bom senso primário à moça e à sua gerente superior, desisti quando a gerente adicionou que o extrato do Real tinha mais de 60 dias (era um demonstrativo para IR).
Na rua ocorre-me conferir a data do extrato. Referia-se ao ano base 2007, exercício 2008, mas não tinha absolutamente nenhuma data, nem de emissão, nem de postagem, nada. Não tive saco de voltar para discutir os 60 dias de um documento sem data.

Entende-se que são exigências da CVM, comissão de valores mobiliários, para justificar que não fica deixando os bandidos mutretarem com ações o tempo todo, o resultado, claro, é que os bandidos continuam livres mutretando e o desinfeliz dono de 400 reales de ações de telegangues tem que mostrar que reside na rua x (já imaginou que perigo se ele na verdade mora na rua y !). Ainda sem perder a ternura e curtindo, conto o caso por imeiu pro banco central, o sindicato dos banqueiros. A resposta é uma pérola :

Prezado Sr.
Em atendimento à sua reclamação, informamos;
Não existe norma desta Autarquia que contemple sua reclamação.
Atenciosamente,
DECIC/ GTRJA/ ATENDIMENTO.

No outro dia, volto a outra agência do mesmo bando Real, com uma conta de telegangue.
Tem que autenticar. Vou autenticar, o cara do cartório diz que tem que ser toda a folha, frente e verso. Êpa, mas porque não só a parte superior, com o logotipo da tele e os meus dados ? Normas do tribunal de justiça. Uai, mas e meus dados sigilosos de telefonemas ? Desculpe, mas posso lhe mostrar a norma.

(O escriba é naturalmente assim, mas frequentemente reflete que na próxima encarnação vai querer ser diferente, bem brasileirinho - deve ser mais fácil pro tico e o teco - ou não ?).

(Mas há o pré-requisito de ainda nesta encarnação converter-se ao espiritismo, a melhor religião sob o aspecto ""diferenciado"" custo-benefício : no fim tudo dá certo, uma anti-religião).

(Uma amiga dizia que - neste caso de ainda não convertido - deve se falar 'na próxima encadernação' : a gente vai pensando e analisando a vida, quando chega um certo ponto, encaderna-se e continua, e assim por diante).

15 de set. de 2007

Sem senso de noção

O texto abaixo saiu na coluna de Hildegard Angel no JB – Caderno B – na sexta-feira, 31 de agosto de 2007.
Dá uma idéia da falta de certas noções importantes na cabeça do Lula, que ainda não aprendeu nesta altura do quinto ano de mandato.
(mas o pior é que a opção são os tucanos lesa-pátria)
Tudo bem. Lula foi o primeiro Presidente da República do Brasil a receber no palácio os familiares dos desaparecidos políticos. Não vamos considerar que Lula levou cinco anos para isso, nem que ele aparentemente morre de medo dos militares. O que torna esse episódio incrível é como essa audiência se deu : totalmente clandestina ! Éramos pouco mais de 20 familiares de nomes emblemáticos, como o filho de Wladimir Herzog e a viúva de Carlos Marighela, Clara, e fomos recebidos na ante-sala do gabinete presidencial. Foi um encontro histórico sem registro oficial. Mudo, silencioso, calado, escondido ! Não teve imprensa, não teve fotógrafo, não teve um repórter da Radiobrás, nada. Sequer cobertura oficial houve, como é de praxe. Como no caso do MST, quando o presidente tira foto, põe boné. Nem mesmo no site do Governo, que registra todas as audiências, há menção ao encontro de quarta-feira. As velhinhas presentes, nossas mães da Praça de Mayo, com os rostos de seus mortos impressos nas camisetas, ficaram frustradas. Teve gente se sentindo tão na clandestinidade quanto no tempo da militância.
Foi tudo muito emocionante.
Lula nos recebeu na ante-sala de seu gabinete. Éramos os familiares das vítimas dos governos militares, dos desaparecidos, torturados, executados. O presidente foi terno. Cumprimentou e abraçou, de modo solidário, um por um. Foi pedido aos presentes que se apresentassem, nomeando seu familiar morto. Foi muito triste. Não poucos tinham, no seu ranking trágico, dois, três ou até quatro perdas. Olhos se encheram de lágrimas, ferida que não cicatriza jamais.
Euzita, 94 anos, mãe do desaparecido Fernando Santa Cruz, falou, representando os familiares, e encerrou fazendo a súplica: “Senhor Presidente, abre logo esses arquivos, não tenho mais tempo para esperar para enterrar o corpo do meu filho”.
Falaram, em seguida, o presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos, o ministro Paulo Vanucchi, dos Direitos Humanos, e, por fim, Lula.
O presidente não parecia à vontade no assunto. Discorreu sobre o sofrimento das famílias de desaparecidos, que “não tinham culpa se um familiar se envolveu em uma coisa errada”. Mas este não foi o único tropeço. Numa segunda gafe, Lula isentou a ditadura militar, contando que, em conversa com os comandos militares, quando discutiam a abertura dos arquivos, ele lhes disse : “Vocês não podem ser responsáveis porque algum elemento da instituição cometeu algum tipo de excesso”. Tropeços de quem, por maior que seja a boa vontade, talvez não sinta em profundidade essa tragédia, ou talvez mesmo não a entenda, apesar de sua grande e reconhecida sensibilidade para as tragédias brasileiras. Não podemos condenar. Difícil, para quem viveu a tragédia da fome, deter-se na tragédia de jovens bem alimentados que deram as vidas por um ideal.
Ao final, depois da sessão emocionada, todos já de pé, deu-se a saia justa. Membro fundador da Comissão de Familiares, Yara Xavier não se conteve: “Presidente, não se tratou de uma questão individual de um sargento, de um capitão, tratou-se de uma questão de Estado”. O presidente retrucou: “Mas o governo do PT não pode responder por isso”. Yara insistiu : “Não, é o ESTADO brasileiro que tem que ser responsável”. Lula rebateu que ela estava à vontade para pensar o que quisesse. Yara disse a última palavra : “Por isso estamos numa democracia”.
Em seguida, passamos todos para o grande foyer do Palácio do Planalto, onde aconteceria a grande solenidade, depois mostrada pelas TVs. Havia ministros, senadores, deputados, autoridades e muitos outros familiares de desaparecidos. O momento era histórico, pontual, um divisor de águas na História política brasileira. Estava sendo lançado, no Palácio do Planalto, o livro-documento Direito à Memória e à Verdade, um trabalho notável de onze anos, reunindo todos os casos analisados pela Comissão de Desaparecidos. Um evento de resgate emblemático, em que o todo o tempo se pisou em ovos, insistindo-se nos discursos nos termos “Conciliação” e “concórdia”, quando se referiam aos militares.
Ao meu lado, queixando-se da discurseira, Maria Augusta, viúva do desaparecido David Capistrano, velhinha, encarquilhada, miúda, nordestina, resmungava entre-dentes : “conciliação, concórdia, são é bandidos”. Sua dor não se calou, pensei, consciente porém de que, naquele momento, ali e agora, dava-se um passo, não tão largo como as famílias pretendem e a Nação merece, mas um passo importante. Como bem disse o ministro Paulo Vanucchi, dos Direitos Humanos, ao falar : “è a primeira vez que há uma manifestação oficial do Estado brasileiro, registrando, para os anais da História, aquela realidade dura, difícil.

5 de ago. de 2007

Gasolina, álcool e diesel


Nunca consegui assistir a este anúncio da Petrobras , "Mais energia para o Pan 2007" (o que significa a frase mesmo ?), sem imaginar gasolina, álcool e diesel sendo jogados sobre as multidões. A seguir seria tocado fogo ?
Aliás, a empresa não é de usufruto de alguns amigos, como a PDVSA, mas desde o início do governo fhc (o lesa-pátria) tenho sentido que as direções tucanas e petistas só querem mesmo torná-la uma das famigeradas "sete irmãs". O papo de energias alternativas é só prá petista bobo ver.

31 de jul. de 2007

Medo


Estes dias andei lendo o livro O medo na cidade do Rio de Janeiro – Dois tempos de uma história - de Vera Malaguti Batista – ed. Revan 2003 - Um competentíssimo estudo sociológico, desde os medos causados as elites pelas multidões nas cidades com a revolução Industrial até a nossa escravatura e a cidade na atualidade. O tema não deixa de lembrar o medo como forma de controle de que trata o filme “Tiros em Columbine”, do diretor Michael Moore. Acho mesmo que incluirei neste depositário de textos a serem lembrados algumas passagens desta interessante obra, alguns até cômicos, se não fossem trágicos.

A dedicatória já me toca especialmente : “Para Leonel Brizola, pelo destemor com que enfrentou o Império; pelo medo que sempre despertou nos caretas e nos covardes.”

A página 107 relembra-me o fato surreal que tanto revela da nossa “sociedade cordial” :

“No dia 4 de agosto de 2000, o Movimento dos trabalhadores Sem-Teto (MTST), integrado por moradores de ocupações na Baixada fluminense e na zona oeste, “invadiram” um shopping, uma espécie de templo do consumo no Rio de Janeiro, o Rio Sul. Na verdade era uma invasão estética, já que o objetivo era passear no shopping, e não tomá-lo. As autoridades da Segurança Pública no Rio de Janeiro souberam da iniciativa e tomaram precauções: os ônibus em que estavam os sem-teto foram parados na Avenida Brasil e impedidos de prosseguir por falta de documentos. Os sem-teto seguiram em ônibus comuns e encontraram o Rio Sul guardado por 40 policiais. A dona de casa Elizabeth da silva, 36 anos, do acampamento Araguaia, chorou ao ver os policiais: “Nós não vamos mexer em nada! Por que isso ?” (JB, 05-08-2000).

Segue comentários "dos dois lados" e análises do fato. Lembrança e reflexões imperdíveis.


Ingnorânça

Viajando pelo interior do país, constata-se a grande utilização da placa de trânsito "Proibido parar e estacionar" em qualquer rua. As cabeças municipais de trânsito a entendem simplesmente como ênfase à placa de proibido estacionar.

Uma hora destas vai se ter que inventar outra placa para sinalizar as vias rápidas, como a ponte Rio-Niterói.

Talvez esta :

22 de jul. de 2007

Transpostes Aéreos Marília

Em tempos de mais uma queda de avião da TAM, republico a sabedoria do Kipling. Quando no país-surreal o video está rolando como tendo a ver com o acidente, tratando-se apenas do mesmo modelo de avião.

Na verdade, a voz do video original (e antigo) é sobre o primeiro teste de aterrisagem de um avião completamente por computador.


Este novo navio está equipado de acordo com os mais modernos conhecimentos da humanidade.

A saber, ele é atulhado de ponta a ponta com sinos, cornetas, relógios, fios e, me foi dito, pode tirar vozes do ar sobre as águas para pilotar o navio enquanto a tripulação dorme.

Mas durmam levemente.

Ainda não me foi dito que o MAR deixou de ser o MAR.


Rudyard Kipling, 1865 – 1936

15 de jun. de 2007

Rio de Janeiro - Descrição de 1845

Por Miguel Antonio Heredia de Sá - Em Algumas reflexões sobre a cópula, o onanismo e prostituição no Rio de Janeiro (tese) Typ Universal de Laemmert, 1845.
( Em O medo na cidade do Rio de Janeiro, de Vera Malaguti Batista – ed. Revan 2003 )

Situado quase debaixo do tropico de Capricornio e proximo a escapar-se á zona torrida, em a extremidade de uma extensíssima campina representando o fundo de uma bacia, circundada por vasta cadeia de elevadas serras, mananciaes inexhauriveis de copiosissimas aguas, jaz edificada a cidade do rio de Janeiro. Seu solo é baixo, elevando-se nos lugares mais altos a 11 palmos apenas acima das marés altas, humido e perfeitamente impregnado d´agua; sua atmosphera não renovada e constantemente saturada de vapores aquosos, miasmas paludosas, hydrogenio carburetado, e de muitos principios deleterios. Os morros de S. Bento, Conceição e s. Diogo, que correm na linha de Leste a Nordeste, Norte e Noroeste; e os ventos vespertinos, mareiros, mais fortes, que soprão do sul, suduéste e suéste, se embatem em os morros do Castelo, Santo Antonio e a cordilheira de Santa Tereza. O clima indefinivel, estações confundindo-se sem se extremarem constante de temperatura, descendo ou subindo o thermometro em poucas horas oito a dez gráos, não abaixando mais contudo alem de sessenta gráos (F). As ruas estreitas, seguindo a direcção, as principais de Leste a Oeste, banhadas de manha e de tarde pelo sol, crusadas por canos de esgoto, muitas immundissimas com pequena ou nem uma elevação acima do nivel do mar. Casas de pequenas frentes, grandes fundos, nada ventiladas, e formigando de habitadores. Praias immundissimas. Templos atulhadissimos de cadáveres.
Resulta pois que a atmosphera impregnada de principios deleterios, de gazes nocivos, o ar degenerado, não pode se prestar convinhavelmente a respiração, e que a hematose e imperfeita, e o sangue depauperado de principios vivificadores. A grande quantidade d´agua que sob a forma de vapores satura a atmosphera, que não achando esgoto pelo nenhum declive do solo se há evaporado, concentrado e retendo os raios caloriferos produz uma temperatura elevadissima, que enlanguece os corpos, entorpece as funcções pelo extremo suor constante e excessiva excitação do sistema cutaneo. Os pulmões não permeados perfeitamente pelo ar, visto seu peso ser menor pela grande rarefacção atmospherica, e por causa dos vapores aquosos, são anormalmente excitados pelo brusco abaixamento de temperatura, que condemnsando mais o ar atmospherico obriga-os a uma respiração forte e enriquecida de oxigenio fazendo convergir para ahi as forças vitaes, que o demasiado calor e da humidade fazem predominar os sistemas muscular e as forças digestivas, empobrecendo o systema arterial e predominando o venoso, maxime a veia porta, onde a extasis congestiva do sangue predispõe ou antes determina a disposição hemorrhoidaria. As emanações miasmáticas exhaladas dos pantanos existentes mal aterrados, e as que vem acarretadas pelos ventos terraes, produzem as affecções intermitentes tam abundantes.
A constituição physica dos habitadores d´esta aliás bellissima cidade não pode permanecer refractaria a acção morbifica de agentes tam desorganizadores. Seu physico e seu moral são, permitta-se-nos a phrase, entorpecidos por causas tam elanguescentes. O temperamento limphatico, nervoso e melancolico são os predominantes; e as afecções cutaneas, as intermittentes, as pulmonares, sobre todas a tisica ; sim, a tisica, essa enfermidade devastadora pesa sobre nos, terrivel como a ira do senhor, e legada como um anathema de exterminio de geração a geração, decíma os Fluminenses, encarnecendo dos esforços desesperados da sciencia, e desanimando os mais incansaveis medicos, que amerceando-se da humanidade, embalde se esforçam a fazer para este flagello horrivel, que a cada momento enluta as familias, roubando-lhes prendas mais caras”.

4 de mai. de 2007

A reeleição do fhc

Gosto do Paulo Henrique Amorim e de seu blog "Conversa Afiada". Assim, este depositório passa a guardar e reproduzir esse artigo, para que fique à mão e não sejam esquecidas a verdade e o momento político em que o país levava uma trolha e gostava, reelegendo o lesa-pátria Fernando Henrique Cardoso.
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01/05/2007

CLINTON TROCA FHC POR LULA

Paulo Henrique Amorim
. É do conhecimento do mundo mineral (como diria o Mino Carta), que Bill Clinton re-elegeu Fernando Henrique Cardoso.
. A descrição de como o FMI, em setembro-outubro de 1998 (a eleição foi em outubro !), por pressão do Tesouro americano (leia-se Bill Clinton), a contra-gosto, montou um “megabailout” para salvar o Real – e a eleição de FHC – está no livro “The Chastening”, de Paul Blustein, reporter do Washington Post.
. No capítulo “Caindo aos pedaços”, Blustein descreve a situação patética da economia brasileira naquele momento (vale a pena ver de novo do que nos livramos !):
. Câmbio congelado em R$ 1,20 por dólar.
. Entre agosto e setembro de 1998 o Brasil perdeu US$ 30 bilhões em reservas !
. Em setembro (é bom recordar, um mês antes da re-eleição de FHC), a Bolsa de Valores de São Paulo caía 16% AO DIA !
. O déficit em conta-corrente era de 4% do PIB.
. O déficit do Governo era de 8% do PIB !!! (Hoje há uma gritaria nos jornais porque o déficit público vai ficar abaixo de 4% !!!)
. Os títulos lançados pelo Governo brasileiro tinham uma “maturity” média de 7 meses !
. Em setembro (lembre-se, a eleição foi em outubro), conta Blustein, o Ministro da Fazenda Pedro Malan se reuniu com ministros da Fazenda, em Washington e fez humor negro: citou a frase que abre o romance Ana Karenina, de Tolstoy: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. (*)
. Antes, num encontro com o Ministro do Tesouro de Clinton, Larry Summers, Malan tinha dito que não havia Pano B: FHC, o Farol de Alexandria, não ia desvalorizar o Real, pouco antes da eleição.
. Os europeus e japoneses acreditavam que dar uma bolada ao Brasil para salvar o Real era o mesmo do que dar tempo para os especuladores fugirem do Real sobrevalorizado.
. Era tacada boa para encher o bolso dos especuladores.
. (Sobre tacadas, clique aqui para ler a entrevista que fiz com Luís Nassif sobre a tacada de Andre Lara Resende, no lançamento do Real).
. Não teve conversa: Clinton enfiou o “megabailout” pela goela abaixo dos europeus e japoneses.
. O Real ficou onde estava e FHC se re-elegeu.
. E depois veio o desastre que todos conhecem.
. E que resultou na eleição do Presidente Lula, numa campanha em que nenhum candidato – nem o de FHC, José Serra, hoje presidente eleito – defendeu a política econômica de FHC.
. Durante muito tempo, FHC jactou-se de ser o interlocutor especial dos Estados Unidos, porque tinha uma relação especial com Bill Clinton.
. Essa aproximação de FHC com Clinton e alguns comentários pouco elogiosos que fez a Bush provocaram o afastamento dos Estados Unidos do Brasil – o que só a eleição de Lula consertou.
. Na edição de hoje do Estadão, a correspondente Patrícia Campos Mello, descreve um encontro, em Washington, do Fórum de Desenvolvimento Sustentável.
. Título: “Brasil é modelo mundial, diz Clinton”
. Clinton elogia a intensificação do programa de bio-combustíveis e defende que o Brasil tenha assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança da Onu.
. Duas bandeiras do Presidente Lula.
. Clinton diz assim: “Estive com o primeiro-ministro da Etiópia e ele disse ‘quero ser o Brasil da África. Nós podemos produzir cana-de-açúcar igualzinho ao Brasil’.”
. Como presidente dos Estados Unidos, Clinton não era amigo de FHC: Clinton é amigo dos Estados Unidos ...

12 de abr. de 2007

Descriminalização


Sem maiores aprofundamentos - que seriam interessantes - imagino um belo dia em que as drogas fossem legalizadas.
No dia seguinte, intermináveis filas de perdidos traficantes nas prefeituras, fazendo requerimentos de alvarás de funcionamento de farmácias prá venda dos elementos a preço do tal mercado.
Com a desmobilização do aparato drogatício passaria a sobrar verbas para assistência pública aos humanos que se viciam em qualquer coisa, até futebol. Os pais passariam a prestar mais atenção ao tipo de gente que são e que tipo de filhos estão criando.

(outro dia continuo imaginando, coisas como upgrades massificados de intelecto e reflexão, esvaziamento do culto ao corpo e à objetivação das mulheres e daí por diante...)

26 de out. de 2006

Trânsito I

Jovem e morando um tempo nos EUA, tive uma experiência de batida de trânsito que me ficou para sempre como exemplo da simplicidade rotineira com que a justiça pode funcionar :

Meia noite e eu retornava do trabalho atravessando uma pequena cidade encravada no meio de Long Beach, na Califórnia. Chama-se Signal Hill, nada além de algumas quadras de terrenos vazios com um monte de bombas extraindo petróleo. No cruzamento de duas vias de media velocidade um Mustang avança o sinal vermelho e bate logo atrás do meu assento (se não, já era). O carro, um Impala rodopiou até parar ( só serviu para vender para um ferro velho pelo preço da bateria ).

Em menos de cinco minutos aparece um carro da polícia.

No Mustang havia dois casais, os homens na frente e as mulheres atrás. Um policial questiona os dois homens do ocorrido, ambos afirmam que eu passei no sinal vermelho. O outro policial questionava as duas mulheres afastado alguns metros : “Não sei o que houve com o fulano, vínhamos de um bar e ele atravessou o sinal vermelho”. Não foi necessário aprofundar para a velocidade com que vinha - uns 120 km/h, excesso – que o estrago total de meu carro mostrava, ou possível estado etílico. Simplesmente multaram, no ato, o motorista do Mustang por avanço de sinal.

Aquela aplicação da multa no momento ‘quente’ do ocorrido fez instantaneamente a justiça, o Boletim de Ocorrência e o pagamento das despesas pelo seguro da parte culpada.

Sem ocupar qualquer mecanismo judicial.